quarta-feira, 30 de março de 2011

Crônicas da vida medieval: O mosteiro de São Lourenço

Lourenço havia habitado a cidade de Porto Sul há muitos séculos. Dizia-se que era filho bastardo de um poderoso nobre local, tendo, por isso, sido enviado ao priorado de São Juvenal, três dias ao norte de Porto Sul, onde aprendeu a ler, escrever e administrar - primeiramente a si mesmo, por meio da disciplina monástica, depois crescendo na graça dos homens até gerenciar todo o mosteiro.

São Juvenal era um priorado pequeno, e administrá-lo tornou-se uma tarefa enfadonha para o então prior Lourenço. Contudo, o dito nobre, que era seu pai, faleceu, deixando-lhe um punhado de terras a leste de Porto Sul, a meio caminho de Santa Vitória. Prior Lourenço viu ali uma oportunidade de deixar seu nome nos anais da história eclesiástica.

Após muitas negociações com os superiores da Madreglesia, Lourenço conseguiu uma autorização para erigir um novo mosteiro nas terras que havia herdado. Munido de sua fé e muita determinação, o prior abdicou de sua posição no priorado de São Juvenal, partindo então para sua herdade, onde tencionava erigir uma grande e profícua abadia.

Infelizmente, a construção se arrastou por mais de 30 anos, e Lourenço não viveu o suficiente para ver seu sonho realizado. Quando morreu, haviam construído apenas um pequeno e provisório priorado, que contava com um número diminuto de 12 monges.

Após a morte de Lourenço, porém, o novo prior deu continuidade ao projeto, porém não mais almejando uma abadia, mas um simples priorado, pouco maior que o provisório que já havia. Conseguiram finalizá-lo um mês antes do dia em que se completaria um ano da morte de Lourenço, data em que agendaram a consagração do local.

Um grande cerimonial foi realizado para celebrar a bênção do priorado e a lembrança de prior Lourenço. Centenas de pessoas das redondezas - em especial Porto Sul e Santa Vitória - compareceram ao culto, movidas pela curiosidade de ver o novo edifício, mais do que pela devoção.

Entretanto, pelo menos uma das almas presentes viera para a cerimônia movida expressamente por sua fé: Clara de Santa Vitoria, uma viúva que havia perdido marido e filhos na guerra, acompanhada de sua única filha restante, Rita, uma jovem de 17 anos, que havia nascido surda-muda. A mãe esperava que a Luz repousasse sobre a menina naquele dia, lhe desse voz e abrisse seus ouvidos.

E assim foi.

Em meio à cerimônia, alguns monges cantavam um hino, enquanto outros traziam o esquife com os restos de prior Lourenço para a nave da igreja, onde ficaria durante a homenagem que lhe seria prestada. Após colocarem o caixão no local previamente designado, os sacerdotes assumiram suas posições no coro, e Clara saiu de dentre a multidão, levando a filha pela mão até tocar no ataúde.

Tudo foi tão rápido que ninguém conseguiu impedi-las de prostrarem-se junto ao caixão, enquanto Clara rogava a plenos pulmões:

- São Lourenço, prior deste mosteiro, concede a minha filha o dom que lhe foi negado desde o nascimento!

Sua voz reverberou por todo o recinto, silenciando o coro e a congregação. O novo prior ergueu-se da cadeira em que se sentava, pronto para repreender a mulher, mas Rita, a filha surda muda, ergueu-se e, fitando o clérigo nos olhos, disse em alto e bom tom:

- Este mosteiro só progredirá se for consagrado a São Lourenço.

Um burburinho se fez ouvir, pois muitos sabiam da deficiência da moça e se admiravam que falasse. O prior, ferido em seus brios pois tencionava dedicar o mosteiro a São Barnabás, ordenou que a multidão silenciasse e que as duas mulheres fossem retiradas da igreja. A cerimônia foi então levada adiante, e o mosteiro dedicado a São Barnabás.

Aquele foi o primeiro milagre concedido por prior Lourenço que, exatamente um ano depois, foi sagrado Santo pela Madreglesia. E, apesar de o mosteiro ter sido dedicado a São Barnabás, a própria população e, alguns anos mais tarde, os próprios monges passaram a chamá-lo de mosteiro de São Lourenço. Contudo, o priorado sempre andou de mal a pior.

***

Balthazar acordou. Lembrava-se de que havia sido cercado e atacado por bandidos na floresta. Seu ombro doía e a cabeça girava. Focou os olhos em redor e percebeu que estava em um quarto simples, com paredes de pedra e poucos móveis. Ao seu lado, sentado em uma cadeira de madeira, um homem lia um pequeno livro, debaixo da luz que entrava pela janela.

- Onde estou? - sussurrou Balthazar.

O homem moveu-se na cadeira, baixou o livro e sorriu, dizendo:

- Que bom que acordaste, filho. Estás no mosteiro de São Lourenço.

Balthazar murmurou alguma coisa ininteligível, deixando a cabeça pender novamente e fechando os olhos. Voltou a dormir, enquanto o homem retomava a leitura.
o ClérigoSo long and thanks for all the fish!

4 comentários:

  1. MUITO BOM!

    Adorei, cara.Esta série esta muito boa de se ler. Continue. Fiquei satisfeito de mais com a história do mosteiro e o milagre de São Lourenço.

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  2. Valeu pessoal! Sim, Red, o clérigo atacado pelos manés era mesmo o Balthazar, lá do primeiro post desta série. E aguardem que logo teremos mais....

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