Ele então pediu para que eu me assentasse à sua frente, e junto de mim sentaram-se umas crianças também, dispostas a ouvir uma história de sabedoria daquele velho que lá estava a mendigar sem rumo...
É vossa decisão, meus amados ouvintes.
E cada memória destas será lembrada...
É sabido que eu já fui jovem, sim eu fui...
Ah, como eu era valente, como era forte,
Tão forte, e até a Morte invejava minha Sorte!
Pois que em mim ela jamais tocaria um dedo,
Ela sabia que eu era um jovem sem medo,
E por sem medo, eu ser imortal se conclui.
E eu era imortal, ah!, tão imortal eu era
Que saía para caçar, caçar valente,
Junto dos outros caçadores, mas à frente:
Era o líder, as feras não tinham defesa:
Eu voltava pra vila c'uma fera presa,
E de um banquete sempre estávamos à espera!
Fazíamos jantares e festas tamanhas,
E carne, e cerveja, e canções nunca faltavam,
No meio das multidões as damas dançavam,
E nossa vila sempre prosperou virente,
Todos felizes, era feliz toda a gente,
E a alegria afundava-se em nossas entranhas.
Tínhamos as moças mais belas e vivazes,
Tínhamos os mancebos mais viris e austeros,
Tínhamos os anciãos sábios e severos...
Tínhamos as risonhas crianças na vila,
Tínhamos tudo de bom que a História compila,
Tínhamos fama de ser da floresta os áses...
Mas assim como nas histórias de verdade,
O que era bom não duraria eternamente...
Enquanto o meu povo festejava inocente
Numa alaranjada e calma tarde outonal,
O Destino nos planejava um bruto mal,
Que viria à noite, com sua obscuridade...
III - O Cair da Noite
Enquanto todos dormiam na madrugada,
Ao som de uma ventania rugindo ao longe,
Um vento que congelaria mesmo um monge,
(Pois o outono à noite é como um dia de inverno),
Entrou em nosso meio um animal externo,
Uma besta de sabedoria avançada,
Uma besta dissimulada e cuidadosa...
Ela veio, e assim como veio, sumiu,
Nenhum rastro ela deixou, nenhum som se ouviu!
Mas ela levou algo de muito valor,
Pois esta era de sua maldade o teor:
Ela nos levou a jóia mais preciosa,
A princesa com a qual eu me casaria,
A dama de meus sonhos noturnos e inquietos,
A grande recebedora dos meus afetos,
A mulher cuja qual o Destino me indicou...
Não, eu nem sonhava que o meu amor tombou
Ante um monstro naquela noite fugidia...
IV - Amanhecer
Quando a manhã veio, e veio a triste notícia
De que a nossa irmã (pois éramos como irmãos)
Desaparecera, todos os anciãos
Reuniram-se em conselho, como costumavam
Fazer sempre, e eles raras vezes se abalavam,
Pois eram acostumados com a imundícia
Dos monstros que se escondem no meio do escuro,
Que espreitam as estradas e os confins d'além,
Que vagam terríveis, com fome, num vai-e-vem,
E que são sagazes caçadores, astutos...
Sim... sim... todos aqueles anciãos matutos
Eram mais tenazes que o pinheiro mais duro!
Eles já tinha vivido muito, se já!
Mas eu não ligava, eu era valente e bravo,
E da minha bravura eu era servo, escravo,
Mas um escravo nobre por certo, assim cria,
Pois a decisão dos velhos foi covardia:
Deixar a vila como sempre foi e será.
V - Caçador Dissimulado
Não, não, eu não poderia aceitar aquilo...
Dissimulei meu pensamento com destreza,
Mas com a minha mente eu mantive a clareza,
E soube no mesmo momento o que eu faria:
Esperaria até o findar daquele dia,
E durante a noite espreitaria tranqüilo
Pela volta do covarde e vil criminoso,
E assim fiz, assim esperei por horas e horas,
Escondido dos anciãos longe, lá fora...
Eu haveria de combatê-lo sozinho,
Ninguém, ninguém ficaria no meu caminho,
Eu voltaria com meu Ouro valioso!
Quando as horas da madrugada já tardavam
E meus olhos pesavam no efeito do sono,
E tremiam meus braços pelo frio do outono,
Eis que, escondido dentro de um amontoado
De caixas de suprimentos, eu vi chegado
O vilão... com vingança meus olhos brilhavam!
Era um vulto, um vulto encapuzado, escondido
Sob um manto de maldade, um raio de horror...
A sua presença causaria pavor
Em qualquer outro morador do vilarejo,
Mas eu era corajoso, o medo eu não vejo,
E mais ainda porque estava enfurecido!
Eu o vi chegando, eu o vi saindo, o vi levando
Mais uma moça adormecida nos seus braços...
Para onde ele a levaria, pra que espaços?
Eu não sabia, mas continuaria furtivo
Esperando para que eu encontrasse vivo
Meu amor, mas a quem eu estava enganando?
Segui a criatura até seu covil nefasto,
E pelo chão encontrei ouro e diamantes.
Percebi no fim que ela não era como antes:
Houvera assumido sua forma real,
Um dragão, um dragão vermelho colossal!
Ah, mas ele não sabe esconder o seu rasto!
VI - O Covil do Dragão, a Coragem do Jovem
Aproximei-me mais e vi muitas donzelas,
As quais a maioria eu jamais tinha visto,
E naquela hora tive certeza disto:
Brenna estava viva, sim ela estava, eu vi!
Assim que a vi, minha forte espada brandi,
Pronto a salvar as princesas e a Brenna bela.
Saltei louco, desvairado, rumo ao dragão,
Eu tinha fé, tinha coragem, venceria,
Nunca tive dúvidas do que eu já sabia,
E eu sabia que aquele combate já estava
Terminado, mas, ah!, como eu alucinava...
Tão rápido quanto a luz de um veloz trovão,
A besta portadora de tez carmesim
Ouviu meu furioso bramido de guerra,
E com a maior força que meu punho encerra
Travei a minha arma no seu couro escamado,
Certamente eu pusera fim ao seu legado...
Mas só então percebi que aquele era o meu fim.
VII - O Preço da Imprudência
A besta bufava, a besta urrava de dor,
Mas será que era de dor ou era surpresa?
Hoje, meus jovens, hoje sim tenho a certeza
De que eu era apenas um jovem imprudente,
Crente da minha força, da bravura crente,
E por isso contemplei o maior horror:
A besta virou-se, me ignorou e cuspiu
Fogo, chamas alaranjadas como o Inferno
Na direção das moças de semblante terno,
E eu estupefato, finalmente notei
Que aquele foi o meu maior erro, eu errei!
E um erro como aquele meu jamais se viu...
Senti o cheiro de carne queimada, morri
Naquele momento também: larguei a espada
No chão, dando minha existência por findada,
E, ajoelhando-me, esperei pela sombria
Sina que sobre mim desencadearia...
Não fui capaz de crer, no entanto, no que vi:
O ferimento que eu causara ao monstro horrendo
Sangrava incessantemente, cobrindo o chão
Da mais catastrófica e vil vermelhidão,
E com isso o dragão, por sobre os seus tesouros,
Caiu, e deixou-me pra sempre duradouros
Sentimentos de que causei um mal tremendo...
Assim, meus jovens, foi o que aconteceu quando
Eu pensava ser do mundo um exemplo forte
E tinha a imprudente coragem como um norte:
Ela pôde apenas me prover com a morte
Da minha adorável e formosa consorte.