domingo, 25 de setembro de 2011

Post do Leitor: Criando Personagens Interessantes


Olá pessoal. Hoje trazemos um brilhante post escrito por Isaque Lazaro (Contos da Névoa). Sem mais demora, vamos conferir suas belas dicas. Passo as palavras para o nosso amigo Isaque...
 


Olá leitores do blog...

Quantas vezes vocês já não leram um título semelhante em sites ao redor do mundo? Quantas dicas já não receberam para criar personagens únicos e diversificados? Bem, vou tentar dar meu parecer sobre o tema, e espero que possam aprender algo de novo.

Em primeiro lugar, vamos nos lembrar que os personagens são a grande roda dentada que faz o RPG acontecer. Todo jogador quer ter o personagem mais incrível, poderoso e memorável da história do RPG, mas... seria um personagem assim o mais legal para O PRÓPRIO JOGADOR?

Em primeiro lugar, vamos pegar como exemplo o Dungeons & Dragons: Um grupo de aventureiros realiza aventuras onde no processo, na maioria das vezes, acaba salvando inocentes de perigos diversos. É CLICHÊ! Não importa quais os motivos que estão guiando os personagens e vilões, quais os métodos para os personagens conseguirem vencer os adversários e conseguir seu objetivo, a idéia em si é clichê, porque a maioria esmagadora dos conceitos de enredo é clichê.

E isso leva à dica nº 1 de como criar um personagem interessante:

1. Clichê é legal!

As pessoas sofreram influência da internet e meios de comunicação, sendo levadas a achar que clichê é ruim, é falta de originalidade. Mas diga-me, o que é realmente original em nosso dia-a-dia? Tem certeza de que o que você pensou é original? Ou seria um aprimoramento de diversas coisas criadas no passado?

Ao criar um personagem Elfo Arqueiro, ou um Anão Guerreiro beberrão e resmungão, uma Humana Maga sensível e que é faminta por conhecimento, um vilão com um fumanchu preto, roupas vermelhas e risada maléfica e etc, você não está sendo um copião sem criatividade. Está trazendo as idéias que você tem de o que é legal ou não para a mesa de jogo. E acredite: muitas pessoas podem concordar com você e achar seu personagem clichêzado muito legal.


E o que acontece se a mesa inteira está com esses personagens “genéricos”? Bem, a resposta é a continuação do parágrafo acima. O contraponto de criar um personagem clichê.

Em qualquer situação, deve se manter em mente que estamos trantando de um RPG. Digo com todas as letras: Role-Playing Game. Por favor, entendam o sentido maior que isso tem! Não importa o sistema, é um jogo de interpretação! Claro que os jogos diferem entre si completamente através dos sistemas de rolagens, combate etc. O que seria do RPG sem os dados, na visão popular?

A verdadeira resposta é: a diferença não seria nenhuma, pois ainda estaríamos interpretando. Entendem o que quero dizer? O grande segredo é a máxima:

2. “Um bom jogo de RPG é aquele que possui interpretativos e dedicados jogadores, e um mestre criativo.”

Como jogador, seu papel... sua OBRIGAÇÃO é interpretar decentemente. Não há problemas um personagem possuir sua personalidade, mas deve se manter em mente que personalidade difere grandemente de visão do mundo. Ou seja, ele pode ser carinhoso e bondoso como você, mas isso não quer dizer que só porque você acharia um kobold assustador, seu personagem que vive num mundo repleto desses bichos iria correr dele. Se o fizesse, seria meio difícil encaixar seu personagem na categoria “herói”. Claro que sempre há exceções...

Para encerrar a questão interpretação, eis a dica: tente não fazer TODOS os seus personagens serem iguais. Mude sempre, tente coisas novas. Interprete o sexo oposto, crie um bravo guerreiro, ou um ladino hipócrita, ou um vampiro sociopata, ou um detetive viciado em drogas. Acima de tudo isso, FAÇA-OS CONVINCENTES! Como o seu sociopata se sente em relação às pessoas? O que ele pensaria em determinada situação? Isso condiz às necessidades químicas/psicológicas/corporais/emocionais dele? Você é o único responsável por tal pensamento, sendo seu personagem um clichê ou não!

E como proceder caso seu mestre queira mestrar uma campanha baseada apenas em combate? Não se preocupe em ter um personagem. Apenas uma ficha para um wargame.

Agora, após quebrar esse tabu de aversão a personagens clichês, vamos tratar de personagens “originais”. Desculpe-me por tocar no mesmo assunto, mas nunca faremos algo completamente original. A criação de uma persona fictícia tem influência óbvia de nosso subconsciente. Logo, ela tem influência de nossa ideologia (isto é, o que vemos no mundo e COMO vemos o mundo). Nossos valores vão involuntariamente afetar nossos personagens, então já começamos por aí: O quão diferente meu personagem será de mim?

Alguns jogadores preferem criar personagens que são o completo oposto de si mesmos. Alguns fazem personagens que têm alguns pontos de convergência consigo mesmos, e alguns fazem um reflexo de si. Para este último caso, fica apenas a dica de visão do mundo previamente dada.

Para os demais, vamos trabalhar com alguns pontos:

3. A psicologia do personagem

Ao se escrever um livro, criar um game, ou lidar com qualquer criação de uma pessoa fictícia, ela deixa de ser tão fictícia assim. A psicologia (e recentemente o roteiro cinematográfico) crê que para cada indivíduo, na verdade existem três. Se pergunte agora:

- Quem eu sou?

- Quem eu penso que sou?

- Quem eu quero ser?


Sua primeira reposta foi errada. Não importa o quanto tentemos, o quão sincero formos, o quanto nos martirizarmos, essa resposta só está correta quando dita por alguém de FORA de seu corpo (portanto, segunda personalidade e espíritos encarnados não contam). Logo, seu personagem também sempre estará um pouco equivocado em relação à suas capacidades, moral e etc.



Mantendo em mente que seu personagem realmente existe (e existe mesmo), levamos ao ponto dois: como os seres inteligentes (e de uma cultura não-alienígena) o vê? Isso é muito importante para o mestre poder criar um universo realista em volta de seu personagem. Não espere que ele vai aceitar o “todas as garotas ficam aos meus pés e os caras não se importam”. Isso não costuma funcionar.

A pergunta final nos leva ao próximo ponto:

4. A motivação do personagem

Aqui, toda resposta é válida. Ele pode “gostar de aventuras”, isso é uma resposta perfeitamente aceitável. Uma dica que eu gosto muito de dar é criar um panorama geral do que o personagem fez de interessante durante sua vida. Isso ajuda o mestre a criar npcs que têm alguma ligação passada com o personagem, criando uma estória mais crível e imprevisível!

Ele tem algum trauma? Algum preconceito? Essas coisas o influenciam como em relação ao que deseja? Ele busca felicidade através do que?

Toda personagem, assim como toda pessoa, tem cada uma de suas ações justificada pela busca pelo prazer. Tudo, por mais sádico e maléfico que seja, que um personagem fizer será para buscar algum tipo de prazer, então pense. Afinal, como esse objetivo trará algum prazer para a vida de meu personagem? Essa resposta geralmente é a mais óbvia possível, pois geralmente tem como resposta a satisfação de um sentimento ou necessidade.

Como ele age em situações decisivas? Isso somado às suas motivações cria o verdadeiro “eu” dele. O que ele realmente é, por mais diferente que seja do que acredita ser. Personagens com uma variação entre esses dois costumam ser extremamente divertidos.

5. A aparência e os atributos

Agora o assunto vai mais para a proposta inicial: o RPG. Afinal, como você pode fazer um personagem musculoso de 1,90m com FORÇA 9?

A aparência física do personagem influencia diretamente como o mundo o vê, e muitas vezes como ele vê a si mesmo. Temos exemplos disso desde Dungeons & Dragons até Vampiro: A Máscara. A aparência de seu personagem pode deixar um passado negro em sua lembrança, falta de confiança, ódio do mundo e desejo de vingança! Também pode causar auto-confiança e esnobismo. Cabe a você criar as combinações que vierem a sua cabeça, e se manter fiel ao que você pretende jogar.

Acreditem: Já mestrei para um jogador que tinha um dragonborn mago com FOR 17 e INT 14. Ele foi quem insistiu, e foi uma coisa meio... bizarra. Jogável, mas bizarra.



Seu personagem possui cicatrizes de uma guerra passada? Uma tatuagem de um clã do qual pretende fugir? Como o corpo dele altera o modo dos outros e dele mesmo ver o mundo? É uma resposta importante, e não basta dizer simplesmente que tem um personagem “bonitão” e muito menos sofrer o...

6. Complexo anime

Isso acontece demais. Tudo no RPG é aceitável, mas eu cansei desse problema. Se você é um adolescente, tem grande chance de estar sofrendo desse mal que é querer personagens novos.

Claro, não há nenhum problema em seu personagem ser um menino prodígio, mas por que TANTOS jogadores querem seu personagem entre 15-20 anos? Já vi gente insistindo para ter um elfo o mais novo possível, e isso é muito chato.

As pessoas que sofrem de complexo anime precisam se conscientizar que quanto menos tempo vivido, menos experiência num mundo caótico e agressivo eles têm! Como há um personagem de 15 anos chutando o traseiro de um lobisomem malvadão de nível 4? Esse tipo de prozeza não possui uma explicação muito clara, e em meu ver, é péssima. Se for um personagem com um bom motivo para isso tudo bem, mas querer que todos os personagens sejam jovens é meio demais, não?



7. O que eu quero jogar afinal?

Eu já vi isso em meu pouco tempo com RPG. Pessoa que reclama que seu vampiro não pode sair no sol, pessoa que reclama que seu fighter não tem magias, pessoa que reclama que seu mago não pode explodir o World Trade Center... PESSOAS QUE RECLAMAM POR NÃO PODER MATAR O CTHULHU!

Observe o contexto geral onde está jogando. Pense em “como eu posso ajudar meus companheiros, e que papel eu quero preencher?”. Esse é um jogo que precisa de uma sincronia quase maestral entre os personagens na maioria das vezes. Pensar isso é de grande importância, e absolutamente necessário para te previnir de frustrações futuras. É metagame sim, mas é necessário.

Por falar em metagame...

8. Isso não é MMO

Não precisa competir para ver quem tem o personagem mais forte!!!! Claro que seu personagem deve ser forte o suficiente para dar um tapa na cara de uns monstros, mas não precisa ser a coisa mais forte do mundo!!

Não se preocupe com builds ferradas, combos destrutivos nem nada disso! Aproveite a narrativa, e o mestre proverá tudo. Eu prometo que ele não vai colocar um Beholder para matar seu ladino lv 1 caso você não merecer (ou ele for muito mau/sem graça). Se ele fizer isso de maneira séria, busque outra mesa URGENTE. Afinal a última dica é...

9. Sinta-se bem, divirta-se!

Não faz sentido parar seu fim de semana para ir se estressar. Faça um personagem divertido e PARA TER DIVERSÃO! Todas essas dicas ditas não servem como um guia, e não precisam ser seguidas ao pé da letra. Afinal, apenas compartilhei algumas coisas que podem ser interessantes para vocês.

Faltou alguma coisa? Não concordam com algo? Feedback é bem vindo! Comente abaixo, e bom jogo para todos!

Um grande abraço de Isaque Lazaro (Contos da Névoa).
DruidaO Druida já era um druida antes mesmo da chegada da 3ª edição. Desenhista, escritor e professor de artes marciais é também fã de quadrinhos, pintura, literatura, poesia, músicas new age e principalmente RPG. Passou alguns anos tentando construir um PdM épico para sua campanha de DeD 3.5, mas nunca conseguiu calcular corretamente seus talentos, perícias e magias. Acabou desistindo e abraçou o movimento Old School.

13 comentários:

  1. Eu gostei muito das dicas, e acho que alguns dos que jogam comigo as precisariam ler.
    Só achei que faltou uma dica muito importante, e alguns dos personagens mais interessantes que já conheci em mesas de jogos foram feitos assim: pergunte ao narrador sobre a história que ele quer contar.
    http://hockeyrj.blogspot.com/

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  2. Muito bom texto, os atuais personagens do meu grupo começaram quase que todos como clichês, incluindo meu personagem um anão paladino, mas com o rolar do jogo em uma fulga inusitada do acampamento no meio da estrada, a maga humana foi prestigiada com a visão da cueca samba canção furada do anão enquanto o ajudava a colocar sua armadura, muitas risadas durante a sessão e não deu outra, os dois começaram um amor platônico...rs... do clichê nasceu uma situação super incomum que gera confusões atrás de confusões.

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  3. Super legal esse post, era justamente o que eu havia pensado a um tempo atrás.Parabéns!

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  4. Então parece que meu artigo foi aceito, agradeço pela chance!

    @Victor:
    Acredito que é tudo sempre variável... alguns mestres acabam querendo fazer a história em cima dos personagens, outros querem personagens par aa sua história. Depende muito mais do mestre do que do jogador isso, já que ele é quem estabelece os pré-requisitos na hora de montar a campanha e geralmente avisa os jogadores. Mas obrigado por me lembrar disso! Sequer passou pela minha cabeça discutir sobre isso!!

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  5. Ri muito com o complexo anime. Lembro que em um dos meus grupos tinha isso, com direito a ódio automático entre um personagem (e jogador dele) contra outro. Bem, isso já faz uns bons cinco anos, e felizmente depois daquela vez não aconteceu de novo, ainda. xD

    muito bom artigo!

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  6. Boa a parte sobre os clichês. As vezes o diferencial vem na interpretação, afinal, há varias maneiras de se interpretar um anão/guerreiro/ranzinza/portando machado!!

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  7. legal, e a sugestão do vitor tambem foi ótima.

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  8. Nossa, ótimo post! Também gostei muito da parte dos clichês. Sou partidária dos "clássicos" e não acho problema nenhum em fazer personagens genéricos, já que geralmente a diferenciação estará mesmo na interpretação. Agora, umas coisa que eu acho difícil é fugir de si mesmo, como foi falado, tenha a impressão de que minhas personagens sempre ficam mais ou menos parecidas, devido a meu próprio jeito.

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  9. Adorei o post e dei muita risada em certas partes...

    Gostei mto também a maneira como foi construído, conectando um tópico com o outro.

    Parabéns!

    Xero!

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  10. Síndrome do Anime. Tá ai algo que eu vi acontecer muitas vezes, mas nunca tinha relacionado a isso. Boas sacadas.

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  11. Ótimo post. Vou linkar para certos "jogadores".

    É o que eu tenho falado para o pessoal mais novo no grupo, que estão aprendendo a jogar (Interprete a p$%*$ do personagem hehehehehehe, Voce não fala assim, seu personagem não age assim, etc.).
    que alem de criar personagem cliches não conseguem interpretalos de maneira, digamos padrão, são eles mesmos não importa com qual personagem joguem. Ex: O perfil do jogador é praticamente o barbaro impulsivo e tenta jogar de mago. só não morreu pq tinha mais pontos de vida que o guerreiro (não me pergunte como que montou a ficha dele)

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