quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Cantiga do Trovador: O Conto de um Velho Triste


Ouvi de um amigo troll (nem todos são malignos, acreditai-me!), numa conversa em que propúnhamos desafios de arte e de lógica um ao outro, a seguinte frase: "Sem o medo a coragem nada mais é do que mera imprudência!", e desta frase ele me fez um desafio: narrar uma trova que mostrasse com perfeição o significado de tal pensamento. Aceitei tal tarefa e parti. Viajei e viajei, e certo dia encontrei nas ruas de uma pequena cidade pela qual passava, um velho de aspecto extremamente miserável. Eu não tinha moedas nem para mim mesmo, mas meu coração apertou ao ver aquele ser tão desprovido da clemência dos deuses. Então eu lhe disse: "Dar-vos-ei o suficiente para que comeis por dois dias, meu bom homem, mas apenas o farei se me contardes alguma história interessante de vosso tempo..."

Ele então pediu para que eu me assentasse à sua frente, e junto de mim sentaram-se umas crianças também, dispostas a ouvir uma história de sabedoria daquele velho que lá estava a mendigar sem rumo...





“Sem o medo a coragem nada mais é do que mera imprudência!”


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I - Um Velho Contador de Histórias

Este velho contador de histórias vos vai
Contar um conto que ocorreu, ponto por ponto,
E a escolha de acreditar ou não neste conto
É vossa decisão, meus amados ouvintes.
Com prazer, dou início às palavras seguintes,
Aproximai-vos de mim, vinde e me escutai,

Escutai este velho que já não tem nada
Além de lendas dos tempos da antigüidade,
Visões perdidas pra sempre na infinidade
Inerente à passagem astuta dos anos,
Memórias de tempos verdes, menos urbanos,
E cada memória destas será lembrada...


II - A Juventude na Vila Próspera

É sabido que eu já fui jovem, sim eu fui...
Ah, como eu era valente, como era forte,
Tão forte, e até a Morte invejava minha Sorte!
Pois que em mim ela jamais tocaria um dedo,
Ela sabia que eu era um jovem sem medo,
E por sem medo, eu ser imortal se conclui.

E eu era imortal, ah!, tão imortal eu era
Que saía para caçar, caçar valente,
Junto dos outros caçadores, mas à frente:
Era o líder, as feras não tinham defesa:
Eu voltava pra vila c'uma fera presa,
E de um banquete sempre estávamos à espera!

Fazíamos jantares e festas tamanhas,
E carne, e cerveja, e canções nunca faltavam,
No meio das multidões as damas dançavam,
E nossa vila sempre prosperou virente,
Todos felizes, era feliz toda a gente,
E a alegria afundava-se em nossas entranhas.

Tínhamos as moças mais belas e vivazes,
Tínhamos os mancebos mais viris e austeros,
Tínhamos os anciãos sábios e severos...
Tínhamos as risonhas crianças na vila,
Tínhamos tudo de bom que a História compila,
Tínhamos fama de ser da floresta os áses...

Mas assim como nas histórias de verdade,
O que era bom não duraria eternamente...
Enquanto o meu povo festejava inocente
Numa alaranjada e calma tarde outonal,
O Destino nos planejava um bruto mal,
Que viria à noite, com sua obscuridade...


III - O Cair da Noite

Enquanto todos dormiam na madrugada,
Ao som de uma ventania rugindo ao longe,
Um vento que congelaria mesmo um monge,
(Pois o outono à noite é como um dia de inverno),
Entrou em nosso meio um animal externo,
Uma besta de sabedoria avançada,

Uma besta dissimulada e cuidadosa...
Ela veio, e assim como veio, sumiu,
Nenhum rastro ela deixou, nenhum som se ouviu!
Mas ela levou algo de muito valor,
Pois esta era de sua maldade o teor:
Ela nos levou a jóia mais preciosa,

A princesa com a qual eu me casaria,
A dama de meus sonhos noturnos e inquietos,
A grande recebedora dos meus afetos,
A mulher cuja qual o Destino me indicou...
Não, eu nem sonhava que o meu amor tombou
Ante um monstro naquela noite fugidia...


IV - Amanhecer

Quando a manhã veio, e veio a triste notícia
De que a nossa irmã (pois éramos como irmãos)
Desaparecera, todos os anciãos
Reuniram-se em conselho, como costumavam
Fazer sempre, e eles raras vezes se abalavam,
Pois eram acostumados com a imundícia

Dos monstros que se escondem no meio do escuro,
Que espreitam as estradas e os confins d'além,
Que vagam terríveis, com fome, num vai-e-vem,
E que são sagazes caçadores, astutos...
Sim... sim... todos aqueles anciãos matutos
Eram mais tenazes que o pinheiro mais duro!

Eles já tinha vivido muito, se já!
Mas eu não ligava, eu era valente e bravo,
E da minha bravura eu era servo, escravo,
Mas um escravo nobre por certo, assim cria,
Pois a decisão dos velhos foi covardia:
Deixar a vila como sempre foi e será.


V - Caçador Dissimulado

Não, não, eu não poderia aceitar aquilo...
Dissimulei meu pensamento com destreza,
Mas com a minha mente eu mantive a clareza,
E soube no mesmo momento o que eu faria:
Esperaria até o findar daquele dia,
E durante a noite espreitaria tranqüilo

Pela volta do covarde e vil criminoso,
E assim fiz, assim esperei por horas e horas,
Escondido dos anciãos longe, lá fora...
Eu haveria de combatê-lo sozinho,
Ninguém, ninguém ficaria no meu caminho,
Eu voltaria com meu Ouro valioso!

Quando as horas da madrugada já tardavam
E meus olhos pesavam no efeito do sono,
E tremiam meus braços pelo frio do outono,
Eis que, escondido dentro de um amontoado
De caixas de suprimentos, eu vi chegado
O vilão... com vingança meus olhos brilhavam!

Era um vulto, um vulto encapuzado, escondido
Sob um manto de maldade, um raio de horror...
A sua presença causaria pavor
Em qualquer outro morador do vilarejo,
Mas eu era corajoso, o medo eu não vejo,
E mais ainda porque estava enfurecido!

Eu o vi chegando, eu o vi saindo, o vi levando
Mais uma moça adormecida nos seus braços...
Para onde ele a levaria, pra que espaços?
Eu não sabia, mas continuaria furtivo
Esperando para que eu encontrasse vivo
Meu amor, mas a quem eu estava enganando?

Segui a criatura até seu covil nefasto,
E pelo chão encontrei ouro e diamantes.
Percebi no fim que ela não era como antes:
Houvera assumido sua forma real,
Um dragão, um dragão vermelho colossal!
Ah, mas ele não sabe esconder o seu rasto!


VI - O Covil do Dragão, a Coragem do Jovem

Aproximei-me mais e vi muitas donzelas,
As quais a maioria eu jamais tinha visto,
E naquela hora tive certeza disto:
Brenna estava viva, sim ela estava, eu vi!
Assim que a vi, minha forte espada brandi,
Pronto a salvar as princesas e a Brenna bela.

Saltei louco, desvairado, rumo ao dragão,
Eu tinha fé, tinha coragem, venceria,
Nunca tive dúvidas do que eu já sabia,
E eu sabia que aquele combate já estava
Terminado, mas, ah!, como eu alucinava...
Tão rápido quanto a luz de um veloz trovão,

A besta portadora de tez carmesim
Ouviu meu furioso bramido de guerra,
E com a maior força que meu punho encerra
Travei a minha arma no seu couro escamado,
Certamente eu pusera fim ao seu legado...
Mas só então percebi que aquele era o meu fim.


VII - O Preço da Imprudência

A besta bufava, a besta urrava de dor,
Mas será que era de dor ou era surpresa?
Hoje, meus jovens, hoje sim tenho a certeza
De que eu era apenas um jovem imprudente,
Crente da minha força, da bravura crente,
E por isso contemplei o maior horror:

A besta virou-se, me ignorou e cuspiu
Fogo, chamas alaranjadas como o Inferno
Na direção das moças de semblante terno,
E eu estupefato, finalmente notei
Que aquele foi o meu maior erro, eu errei!
E um erro como aquele meu jamais se viu...

Senti o cheiro de carne queimada, morri
Naquele momento também: larguei a espada
No chão, dando minha existência por findada,
E, ajoelhando-me, esperei pela sombria
Sina que sobre mim desencadearia...
Não fui capaz de crer, no entanto, no que vi:

O ferimento que eu causara ao monstro horrendo
Sangrava incessantemente, cobrindo o chão
Da mais catastrófica e vil vermelhidão,
E com isso o dragão, por sobre os seus tesouros,
Caiu, e deixou-me pra sempre duradouros
Sentimentos de que causei um mal tremendo...

Assim, meus jovens, foi o que aconteceu quando
Eu pensava ser do mundo um exemplo forte
E tinha a imprudente coragem como um norte:
Ela pôde apenas me prover com a morte
Da minha adorável e formosa consorte.
Escolhei se haveis de crer neste velho miserando...

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E isto foi tudo quanto ouvi do velho, e ao cessar de sua narrativa, dei-lhe as moedas conforme lhe houve prometido, espantado por sua narração ter caído tão bem sobre o pensamento que ecoava por tanto tempo em minha mente.

Foi esta exatamente a mesma história que contei ao meu bom amigo das florestas, tentando vencer o desafio que por ele me foi proposto.

Despeço-me e parto por novas sendas a fim de ouvir novas trovas, ó sábios peregrinos. Que perdure a luz em vosso caminho!

P.S.: Este poema foi também postado em meu deviantART, no seguinte link: O Conto de um Velho Triste

12 comentários:

  1. Extraordinário =D...

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  2. Dá-lhe Encaitar, o poeta da blogosfera! Mandou ver, tá de parabéns mesmo!

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  3. Na próxima eu tento controlar o tamanho do post, prometo... me empolguei nesse xD

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  4. Encaitar seus poemas são realmente muito bons parabéns!
    Que dicas vc dá pra quem quiser tentar escrever os seus próprios poemas desse tipo (contando estórias e tal...)?

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  5. Identifique-se, caro Anônimo, eu não mordo não xD

    Não sei se estou em posição para dar dicas a outras pessoas, mas... o melhor jeito de se fazer é como ocorre com livros em prosa: ler bastantes obras do gênero. Como sou um fã de poemas em geral, acabei me acostumando com o estilo e perdendo o medo de mostrar minha própria produção... ^^

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  6. Mama mia, isso foi muito bom cara! Parabéns!

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  7. Realmente ficou muito bom... Divino!

    Encaitar, vc se importaria de eu usar o poema em uma aventura do jogo que estou narrando?
    Não se preocupe que passo os créditos do poeta direitinho....

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  8. Wow, seria um privilégio ver alguém usando qualquer coisa saída da minha mente perdida em suas próprias aventuras *-*

    Não precisavas nem ter perguntado isso, cara Bel, faze o que quiseres ^^

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  9. Muito bom Encaitar!!!
    É bom ver que os poetas no RPG também existem e não tem medo de escrever sobre lá no Falando de RPG tem uns poemas meus também se poder dar uma passada por lá eu agradeço!

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